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Interoperabilidade: O gargalo invisível do gasto em saúde no Brasil

O paradoxo do gasto em saúde no Brasil é evidente: o país investe volumes crescentes de recursos, tanto no setor público quanto no privado, mas a percepção de eficiência não acompanha esse avanço. Em 2024, o gasto público atingiu 5,03% do PIB, impulsionado por despesas hospitalares que cresceram quase 15% em termos nominais. Na saúde suplementar, a pressão dos custos é intensificada pela inflação médica, que permanece em patamares elevados no pós-pandemia. Apesar dessas cifras, filas persistem e informações cruciais não circulam, resultando em decisões tomadas com base em visões parciais da trajetória do paciente.

Essa dissonância tem uma causa estrutural ainda subestimada: a forma como a informação é produzida, armazenada e compartilhada. O desperdício não decorre apenas de insuficiência de recursos, mas de falhas na circulação do dado ao longo da jornada de cuidado. Quando a informação não chega ao profissional no momento certo, o sistema perde eficiência, repete etapas e utiliza mal sua capacidade instalada. Além da fragmentação, há o subaproveitamento: o país produz um vasto patrimônio de dados clínicos e epidemiológicos que permanece disperso em sistemas isolados, convertendo o que deveria ser um ativo estratégico em um estoque ocioso.

Estudos sobre o sistema brasileiro mostram que parte relevante dos gastos hospitalares está associada a falhas na entrega de valor, como a repetição desnecessária de exames, internações prolongadas e readmissões evitáveis. A baixa interoperabilidade atua como um multiplicador transversal dessas ineficiências. Quando um médico não acessa o histórico clínico por estar registrado em outro sistema, ele é forçado a reincidir na coleta de dados e tende a solicitar novos exames, decidindo com menor segurança. Para o gestor público, a falta de dados consolidados aumenta o risco de erro na alocação de leitos; para as operadoras, impede a identificação precoce de deterioração clínica em pacientes crônicos.

É um erro tratar a interoperabilidade apenas como um desafio tecnológico de conectar sistemas ou padronizar campos. Embora iniciativas como a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) e o padrão HL7 FHIR sejam avanços fundamentais, conectar sistemas não garante a integração útil da informação. A interoperabilidade real exige qualidade, contexto e governança. Os maiores obstáculos são institucionais e culturais, em que dados ainda são vistos como ativos de retenção de poder e não como elementos essenciais para a continuidade do cuidado. Há também barreiras estratégicas, se o tema fica restrito à TI; e financeiras, pois o investimento é imediato enquanto os ganhos se distribuem entre diversos atores ao longo do tempo.

Os efeitos dessa fragmentação ultrapassam as planilhas financeiras, manifestando-se em perdas de tempo e segurança. Quando o profissional precisa reconstruir o histórico do paciente a cada atendimento, o sistema desperdiça tempo clínico qualificado que deveria ser dedicado ao cuidado direto. No caso de pacientes crônicos, a falta de um histórico integrado pode ocultar interações medicamentosas perigosas e interromper o seguimento assistencial, elevando o risco de complicações. Organismos internacionais já demonstraram que prontuários interoperáveis são ferramentas vitais para reduzir danos evitáveis e aumentar a segurança do paciente.

O risco atual é a falsa sensação de que a digitalização isolada resolve o problema. Um prontuário eletrônico que não conversa com a rede é apenas uma versão digital do papel e não constitui interoperabilidade plena. Sem dados integrados, torna-se impossível projetar demandas com precisão, dimensionar compras ou avaliar a efetividade de programas de saúde. Países da OCDE tratam a governança de dados como prioridade nacional, estabelecendo regras claras de acesso e uso responsável.

Em última análise, a interoperabilidade deve ser compreendida como uma infraestrutura crítica de coordenação e sustentabilidade econômica. Para o setor público, é condição para uma gestão eficiente; para o setor privado, é o caminho para diminuir desperdícios e riscos; e para o cidadão, é a garantia de um cuidado mais seguro. Gastar mais sem corrigir a fragmentação da informação é insistir em ampliar o fluxo de recursos sem vedar os vazamentos do sistema. O desafio central do Brasil não é apenas tecnológico, mas de liderança e priorização institucional para transformar investimento em saúde em valor efetivo para o paciente.

Teresa Sacchetta, diretora de Saúde da InterSystems, é médica com PhD pela USP, MBAs pela FGV e FIA-USP e possui 20 anos de experiência em projetos de impacto global na área de saúde.

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